Entenda como a Pimenta pode salvar vidas, combater dores crônicas e até prevenir o câncer de próstata!


Como uma substância presente na pimenta tem sido aplicada à medicina em suas mais variadas formas.

Ao redor do mundo, tanto por gosto quanto por trabalho, centenas de homens e mulheres diariamente se arriscam a experimentar algumas das mais fortes pimentas da natureza. Conhecidos como “chiliheads” (ou “cabeças de chili”, numa tradução livre), esses indivíduos se incumbem da interessante tarefa de identificarem – e sobreviverem – à ardência das mais exóticas pimentas, registrando seus achados em nome da Ciência. E, é claro, da aventura.

O espírito aventureiro e científico dos chiliheads não é recente. Na verdade, o interesse acadêmico pelo sabor da pimenta teve seu pico entre o final do século XIX e o começo do século XX. No início da década de 1910, o farmacologista Wilbur Scoville, dos Estados Unidos, apresentou um método supostamente capaz de mensurar a ardência das pimentas. Este método, hoje conhecido como Teste de Scoville, envolve a mistura de pimentas em seus estados puros com soluções especiais de água e açúcar. Alguns provadores corajosos eram cuidadosamente selecionados para beberem estas soluções. Contudo, o objetivo final de Scoville era anular a ardência dos compostos; quanto mais “pungente” fosse a pimenta, mais água e açúcar eram adicionadas ao composto, até que o sabor fosse completamente diluído.


Escalas de ardência

É claro, o método foi melhorado com o passar dos anos. Uma escala especial, hoje chamada de Escala de Scoville, foi sugerida para a criação de um ranking de calor das pimentas. Supondo, por exemplo, que uma colher de determinada pimenta precisasse de cerca de 100 colheres de água e açúcar para ser completamente diluída, ela corresponderia a 100 unidades de calor na Escala de Scoville.

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O interesse de Wilbur Scoville no ardor das pimentas foi inspirado em pesquisas europeias, publicadas quarenta anos antes de suas pesquisas pessoais. Entre os anos de 1870 e 1880, farmacologistas alemães e húngaros afirmavam que era possível extrair e purificar a substância que atribuía calor à pimenta. O norte-americano estudou estes métodos de extração e determinou que tal substância equivalia a 16 milhões de unidades de calor na Escala de Scoville (a pimenta mais forte de que se tem registro atinge apenas 2,2 milhões). Os europeus chamaram essa substância de capsaicina.

O trabalho dos farmacologistas de ontem e dos chiliheads de hoje foi fundamental para a aplicação da capsaicina no nosso cotidiano. Uma vez descoberto seu potencial em garantir ardência à pimenta, a extração e a purificação da substância começaram a ser feitas em larga escala. Parecia masoquismo, mas tinha, na verdade, um foco inicial na cozinha: em decorrência da sensação de queimadura causada pela capsaicina quando em contato com mucosas, o composto poderia ser utilizado na sintetização de produtos sob a forma de temperos e especiarias, como a páprica.

Só que, como dito ali, a “queimadura” da capsaicina é apenas uma sensação – não é como se algumas pessoas preferissem comidas apimentadas pelo simples prazer de terem suas bocas queimadas pela substância. A queimação é, na verdade, uma ilusão química que induz o cérebro a perceber variações de temperatura que não existem — o que ajuda a realçar o sabor dos alimentos. Isso só acontece porque a capsaicina tem o poder de ativar uma proteína específica em células nervosas que detectam calor e dor.

Em situações normais, essas proteínas – conhecidas como receptores TRPV1 – permanecem inativas em mamíferos, a menos que estimuladas por temperaturas próximas ou acima de 41°C. Quando esses estímulos acontecem, elas provocam reações que nos avisam de danos potenciais. Nos seres humanos, a TRPV1 é mais ativa nas células nervosas da pele e do sistema digestivo. Se você já experimentou algum tempero ou condimento extremamente apimentado, talvez tenha percebido a capsaicina em ação: tão logo seu corpo processa o sabor do tempero, uma sequência de efeitos naturais de resfriamento, como o suor excessivo, é colocada em ação pelas células nervosas. Mais ou menos como acontece em um dia muito quente.


Uso medicinal: dor crônica, psoríase e até câncer

Embora o foco inicial da extração da capsaicina tenha sido a alimentação humana, essas propriedades estimulantes da substância também são muito úteis à medicina. Aplicada sobre a pele, a capsaicina concentrada também pode causar uma sensação muito intensa de queimação. Contudo, se o mesmo tecido for exposto ao composto por um longo período, os receptores TRPV1 das células nervosas de dor eventualmente se esgotarão. Não sendo capazes de responder à capsaicina, as células nervosas também não são capazes de responder a qualquer coisa que possa causar dor. Em outros termos, a exposição contínua à substância funciona como um analgésico.

É interessante ressaltar que, apesar dessas propriedades, a capsaicina concentrada – mesmo em altíssimas doses – não opera como um anestésico local. Ela bloqueia apenas os impulsos de dor de uma gama específica de neurônios (conhecidos como tipos C), enquanto os anestésicos geralmente bloqueiam todos os impulsos e sentidos, como tato, pressão e temperatura.

Nos últimos dez anos, os estudos médicos da capsaicina tem se concentrado em dores associadas a herpes zoster e outras debilidades físicas comumente associadas ao vírus HIV, embora os cientistas reconheçam sua eficácia no tratamento de outros tipos de dor. Em pesquisas realizadas entre 2013 e 2014, soldados com ferimentos decorrentes de explosões no Oriente Médio foram expostos a altas concentrações de capsaicina, e experimentaram uma redução de 70 a 80% da dor. Essas concentrações da substância, apesar de fortes, correspondem a apenas 8% de seu potencial total (cerca de 1,3 milhão de unidades de calor na Escala de Scoville).

O tratamento tópico com sprays ou cremes de 0,025% de concentração de capsaicina, considerada baixa (cerca de 4 mil unidades de calor na Escala de Scoville), também é recomendado para o alívio de dores associadas à artrite. Estudos do início da década de 1990 indicam que esse tratamento foi capaz de reduzir a dor em cerca de 80% dos pacientes submetidos a quatro aplicações diárias durante duas ou três semanas. Cremes com concentrações semelhantes ajudaram pacientes a reduzirem ou eliminarem a coceira e o ardor associados a tipos graves ou moderados de psoríase. Sprays nasais de capsaicina foram capazes de amenizar sintomas decorrentes de alergias respiratórias.

Contudo, uma das maiores aplicações médicas da pimenta provavelmente está no tratamento e na prevenção do câncer de próstata. No ano de 2012, mais de 1 milhão de casos foram registrados no mundo inteiro. Entre os anos de 2005 e 2006, o Journal Of Cancer Research e o Journal Of Physical Chemistry, duas das revistas científicas mais famosas dos Estados Unidos, conduziram e apresentaram pesquisas que indicaram a força da capsaicina sobre células cancerígenas do tipo.

Descobriu-se que a substância se liga às membranas de até 80% dessas células e, em doses suficientemente elevadas, provoca o rompimento de até 25% delas. Em outras palavras, a capsaicina gradativamente leva o câncer a “cometer suicídio”.
Em 2014, os pesquisadores do Journal Of Clinical Investigation conduziram um experimento semelhante, mas relacionado à prevenção do câncer de intestino. Os cientistas aplicaram concentrações de capsaicina em ratos geneticamente propensos ao desenvolvimento de tumores gastrointestinais. Em um processo parecido com aquele da aplicação tópica com cremes e sprays, a substância estimulou os receptores de dor nas células intestinais e desencadeou reações que amenizaram os riscos de câncer.

Segundo os pesquisadores, o tratamento prolongou o tempo de vida dos ratinhos em mais de 30%.


Vamos com calma

Infelizmente, há dois grandes problemas nesse contexto. Em primeiro lugar, os cientistas ainda não sabem dizer qual exatamente é o processo que leva a capsaicina a romper membranas em células cancerígenas. Em segundo lugar, tentar converter a dose da substância usada em roedores para o organismo humano nos obrigaria a ingerir muitas, muitas pimentas por dia – muito mais do que um chilihead fanático está habituado a comer. Trocando em miúdos, os pesquisadores precisam de mais tempo para desvendar sua mecânica. Entender a capsaicina em sua totalidade nos permitiria desenvolver pílulas ou injeções mais dinâmicas e menos dolorosas do que uma salada gigantesca de pimenta.

Por enquanto, o uso tópico de cremes, pomadas, loções e sprays é o único permitido e comprovadamente eficaz em humanos.
Independentemente de sua popularidade, é bom lembrar que até mesmo esses produtos – que podem incluir concentrados de até 5 milhões de unidades de calor na Escala de Scoville – precisam ser aplicados sob a supervisão de um profissional médico especializado.

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